
Tema - A Igreja de Laodicéia - Pr. Islei dos Santos - Escola Bíblica da Fraternal 2009
Ministração realizada na AD Taboão na XXIII Fraternal – Pr. Genício Severo dos Santos – Pr. Presidente – Domingo pela manhã 12/7/2009. Palestrante: Pr. Islei Santos (Teólogo, Mestrando em N.T., Conferencista, Professor e Escritor).
Introdução
De todas as cartas às igrejas da Ásia, esta é a mais severa. Jesus não fez nenhum elogio à igreja de Laodicéia. A única coisa boa em Laodicéia era a opinião da igreja sobre si mesma e, ainda assim, completamente falsa 1.
A cidade de Laodicéia foi fundada em 250 a.C., por Antíoco da Síria 2. A cidade era importante pela sua localização. Ficava no meio das grandes rotas comerciais. Era uma cidade rica e opulenta (abundante).
William Hendrilksen diz que Laodicéia era o lar dos milionários. Na cidade havia teatros, um estádio e um ginásio equipado com banhos. Era a cidade de banqueiros e de transações comerciais 3.
A igreja tinha a cara da cidade. Em vez de transformar a cidade, a igreja tinha se conformado a ela. Laodicéia era a cidade da transigência e a igreja tornou-se também uma igreja transigente.
Os crentes eram frouxos, sem entusiasmo, débeis de caráter, sempre prontos a se comprometerem com o mundo, descuidados. Eles pensavam que todos eram pessoas boas.
Estavam satisfeitos com sua vida espiritual.
A igreja de Laodicéia é a igreja popular, satisfeita a sua prosperidade, orgulhosa de seus membros ricos. A religião deles era apenas uma simulação. George Ladd escreve:
“A carta não menciona perseguições por funcionários romanos, dificuldades com os judeus ou qualquer tipo de falsos mestres dentro da igreja. Laodicéia era muito parecida com Sardes: um exemplo de cristianismo nominal e acomodado. A maior diferença é que em Sardes ainda havia um núcleo que tinha preservado a fé viva (Ap 3:4), enquanto que toda a igreja de Laodicéia estava tomada pela indiferença. Provavelmente muitos membros da igreja participavam ativamente da alta sociedade, e esta riqueza econômica exerceu uma influência mortal sobre a vida espiritual da igreja” 4.
A cidade de Laodicéia destacava-se por quatro características:
1) Era um centro bancário e financeiro: era uma das cidades mais ricas do mundo. Lugar de muitos milionários. A cidade era tão rica que não sentia necessidade de Deus.
2) Era um centro de indústria de tecidos: em Laodicéia produzia-se uma lã especial famosa no mundo inteiro. A cidade orgulhava-se da roupa que produzia.
3) Era um centro médico de importância: ali havia uma escola de medicina famosíssima. Fabricavam-se ali dois ungüentos quase milagrosos para os ouvidos e os olhos. O pó frígio para fabricar o colírio era o médico mais importante produzido na cidade. Esse colírio era exportado para todos os centros populosos do mundo 5.
4) Era um centro das águas térmicas: a região era formada por três cidade: Colossos, Hierápolis e Laodicéia. Tanto as águas quentes de Hierápolis, como as águas frias de Colossos eram terapêuticas, mas as águas mornas de Laodicéia eram intragáveis.
O diagnóstico que Cristo fez da igreja
O Cristo que está no meio dos candeeiros e anda no meio deles, sonda a igreja de Laodicéia e chega ao seguinte diagnóstico: a igreja tinha perdido seu vigor (3:16-17), seus valores (3:17-18), sua visão (3:18b) e suas vestimentas (3:17-22). A vida religiosa da igreja de Laodicéia era frouxa e anêmica.
1) Jesus identificou a falta de fervor espiritual da igreja (3:15)
Na vida cristã há três temperaturas:
(1) Um coração ardente (Lc 24:32);
(2) Um coração frio (Mt 24:12; e
(3) Um coração morno (Ap 3:16).
Nada se informa sobre tentação, perseguição, negação, apostasia ou abalos nesta igreja. O problema da igreja de Laodicéia não era teológico nem moral. Não havia falsos mestres, nem heresias. Não havia pecado de imoralidade nem engano. Não há na carta menção de hereges, malfeitores ou perseguidores.
O que falta à igreja era fervor espiritual. A vida espiritual da igreja era morna, indefinível, apática, indiferente e nauseante. A igreja era acomodada. O problema da igreja não era heresia, mas apatia.
O braseiro deve ser cutucado, alimentado e soprado até incendiar. Muitos crentes têm medo do entusiasmo. Mas entusiasmo é parte essencial do cristianismo. Não podemos ter medo das emoções, e sim do emocionalismo.
2) Jesus identificou que um crente morno é pior que um incrédulo frio (3:15-16)
Fritiz Rienecker diz que o contraste aqui é entre as águas quentes medicinais de Hierápolis e as águas frias, puras, de Colossos. Dessa forma, a igreja em Laodicéia não estava oferecendo nem refrigério para o cansaço espiritual nem cura para o doente espiritual.
Era totalmente ineficaz e, assim, desagradável ao Senhor 6. É melhor ser frígio do que tépido ou morno 7.
É mais honroso ser um ateu declarado do que ser um membro incrédulo de uma igreja evangélica, diz Arthur Bloomfield 8. Charles Erdman diz que religião tépida provoca náusea 9.
A queixa de Jesus contra os fariseus era contra a hipocrisia deles. Alguém que nunca fez profissão de fé e tem a consciência de sua completa falta de vida moral é muito mais fácil de ser ajudado do que algum outro que se julga cristão, mas não ter verdadeira espiritual. A indiferença espiritual é pior do que a frieza espiritual.
Uma pessoa morna é aquela em que há um contraste entre o que diz e o que pensa ser, de um lado, e o que ela realmente é, de outro. Ser morno é ser cego à sua verdadeira condição 10.
3) Jesus identificou que a auto-confiança da igreja era absolutamente falsa (3:17)
O auto-engano é uma grande tragédia. Laodicéia considerava-se rica e era pobre. Sardes se considerava viva e estava morta. Esmirna se considerava pobre, mas era rica. Filadélfia tinha pouca força, mas Jesus colocara diante dela uma porta aberta. O fariseu, equivocadamente, deu graças por não ser como os demais homens. Muitos no dia do juízo vão estar enganados (Mt 7:21-23). A igreja era morna devido à ilusão que alimentava a respeito de si mesma.
A auto-satisfação também é uma grande tragédia. A igreja de Laodicéia disse: “Não preciso de cousa alguma”. A igreja de Laodicéia era morna em seu amor a Cristo, mas amava o dinheiro. O amor ao dinheiro traz uma falsa segurança e uma falsa auto-satisfação. A igreja não tinha consciência de sua condição.
A igreja de Laodicéia enfrentou a tragédia de não ser o que se projetou ser e ser o que nunca se imaginou (3:17c). Ela estava orgulhosa do seu ouro, roupas e colírio. Mas era pobre, nua e cega. A congregação de Laodicéia fervilhava de freqüentadores presunçosos.
Eles diziam: Estou rico e abastado e não preciso de cousa alguma. Os crentes eram ricos. Freqüentavam as altas rodas da sociedade. Eram influentes na cidade.
Eles achavam que estavam indo maravilhosamente bem em sua vida religiosa. Mas Cristo teve de acusá-los de cegos, mendigos e nus. Mendigos apesar de seus bancos, cegos apesar seus pós frígios e nus apesar de suas fábricas de tecidos.
São mendigos porque não têm como comprar o perdão de seus pecados. Estão nus porque não têm roupas adequadas para se apresentarem diante de Deus. Estão cegos porque não conseguem enxergar a sua pobreza espiritual.
4) Jesus revelou que um crente morno, em vez de ser o seu prazer, provoca-lhe náuseas (3:16)
Você só vomita o que ingeriu. Só joga fora o que está dentro. A igreja de Laodicéia era de Cristo, mas em vez de dar alegria, estava provocando-Lhe náuseas.
Uma religião morna provoca náuseas. Jesus tinha muito mais esperança nos publicanos e pecadores do que nos orgulhosos fariseus. Fomos salvos para nos deleitarmos em Deus e sermos a delícia de Deus. Somos filhos de Deus, herdeiros de Deus, a herança de Deus, a menina dos olhos de Deus, a delícia de Deus.
Mas, quando perdemos nossa paixão, nosso fervor, nosso entusiasmo, provocamos dor em nosso Senhor, náuseas no nosso Salvador.
Cristo repudiará totalmente aqueles cuja ligação com Ele é puramente nominal e superficial. A igreja de Laodicéia desapareceu. Da cidade só restam ruínas. A igreja perdeu o tempo de sua oportunidade.
O apelo que Cristo faz à igreja
5) Cristo se apresenta à igreja como um mercador espiritual (3:18)
Cristo prefere dar conselhos em vez de ordens. Sendo soberano de céu e da terra, criador do universo, tendo incontáveis galáxias de estrelas na ponta de seus dedos, tendo o direito de emitir ordens para que Lhe obedeçamos, prefere dar conselhos. Ele poderia ordenar, mas prefere aconselhar.
A suficiência está em Cristo. A igreja julgava-se auto-suficiente, mas os crentes deveriam encontrar sua suficiência em Cristo. “Aconselho-te que compres de mim...”.
Cristo apresenta-se como mascate espiritual (vendedor ambulante) e um camelô espiritual 11.
Seus produtos são essenciais. Seu preço é de graça. Há notícias gloriosas para os mendigos, cegos e nus. Eles são pobres, mas Cristo tem ouro. Eles estão nus, mas Cristo tem roupas. Eles são cegos, mas Cristo tem colírio para os seus olhos.
Cristo exorta a igreja a adquirir ouro para a pobreza, vestimentas brancas para sua nudez e colírio para sua cegueira.
A preciosa mercadoria que Cristo oferece é vital. O ouro que Cristo tem é o Reino do Céu. A roupa que Cristo oferece são as vestes da justiça e da santidade. O colírio que Cristo tem abre os olhos para o discernimento. Só Cristo pode enriquecer nossa pobreza, vestir nossa nudez e curar nossa cegueira.
6) Cristo chama a igreja a uma mudança de vida (3:19)
“Eu disciplino e repreendo os quantos amo. Sê, pois, zeloso e arrepende-te”. Desgosto e amor andam juntos. Cristo não desiste da igreja. Apesar da sua condição, Ele a ama. Antes de revelar o Seu juízo (vomitar da sua boca) Ele demonstra a Sua misericórdia (repreendo e disciplino aqueles que amo).
Disciplina é um ato de amor. A pedra precisa ser lapidada para brilhar. A uva precisa ser prensada para produzir vinho. A base da disciplina é o amor. Porque ama chama ao arrependimento.
Porque ama nos dá oportunidade de recomeçar. Porque ama está disposto a perdoar-nos.
Arrepender-se é dar as costas a esse tipo de cristianismo de aparências, de faz de conta, de mornidão. A piedade superficial nunca salvou ninguém. Não haverá hipócritas no céu 12.
Devemos vomitar essas coisas da nossa boca, do contrário, Ele nos vomitará Devemos trocar os anos de mornidão pelos anos de zelo.
7) Cristo convida a igreja para a ceia, uma profunda comunhão com Ele (3:20)
Há aqui uma triste situação: Cristo, o Senhor da igreja, está do lado de fora. A igreja não tem comunhão com Ele. Cristo vem visitar-nos. Coloca-se em frente da porta do nosso coração. Ele bate. Ele deseja entrar. É uma visita do Amado da nossa alma.
Cristo mostra a necessidade de uma decisão pessoal: “Estou à porta e bato, se alguém abrir a porta entrarei...” (3:20). Jesus bate através de circunstâncias e chama através de sua Palavra 13. Embora Cristo tenha as chaves, prefere bater à porta.
Cristo revela Sua insistência. Diz Ele: “Estou à porta e bato” (3:20). De que maneira Ele bate? Através das Escrituras, de um sermão, de um hino, de um acidente, de uma doença. É preciso ouvir a voz de Jesus. O convite é para um relacionamento pessoal com Cristo. É um convite para cear.
8) Promessas que Cristo faz à igreja (3:14, 21-22)
1) Jesus tem competência para fazer a promessa (3:14);
2) Jesus tem autoridade para tornar a promessa em realidade (3:14);
3) Jesus tem poder para conduzir os vencedores ao seu trono de glória (3:21-22).
A ministração foi retirada do livro: Apocalipse: o futuro já chegou. Hernandes Dias Lopes. 2005: p.137-147. Hagnos.
Notas:
1. Michael Wilcock. A mensagem do Apocalipse. 1986: p. 35.
2. William Barclay. Apocalipsis. 1975: p. 162.
3. William Hendriksen. Más que vencedores. 1965: p. 86.
4. George Ladd. Apocalipse. 1980: p. 50.
5. William Barclay. Apocalipsis. 1975: p. 164.
6. Fritz Rienecker e Cleon Rogers. Chave lingüística do Novo Testamento grego. 1985: p. 611.
7. John Stott. O que Cristo pensa da igreja. 1990: p. 116.
8. Arthur E. Blomfield. As profecias do Apocalipse. 1996: p. 86.
9. Charles R. Erdman. Apocalipse. 1990: p. 50.
10. John Stott. O que Cristo pensa da igreja. 1990: p. 116.
11: Adolf Pohl. Apocalipse de João. Vol. 1. 2001: p. 140.
12. John Stott. O que Cristo pensa da igreja. 1990: p. 121.
13. Warren Wiesbe. The Bible Expository Commentary. Vol. 2. 1985: p. 581.
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